Diante de um tema tão amplo, busca-se aqui uma reflexão sobre a cultura atual e sua relação com a constituição do sujeito que se chama jovem. É notável que o cenário do mundo globalizado provoca a espécie humana de diversas formas. Elemento bastante instigante talvez seja o seguinte: qual a chance de alguém, hoje, inscrever-se num lugar social, tendo emprego, alcançando um objetivo, possuindo uma utopia, um sonho? De outro modo, a cultura, em suas configurações presentes, possui um espaço social capaz de receber as novas gerações com tudo aquilo que elas precisam para uma vida saudável?
Primeiramente, vive-se numa época onde o capital é o mais importante e tudo o que conta é o lucro. Com isso, elementos como solidariedade e bem comum encontram-se cada vez mais em baixa. Grandes massas afogam-se nas desmesuradas formas de competitividade. Em 2007, uma pesquisa constatava que 50 milhões de jovens encontravam-se fora do mercado de trabalho na América do Sul. Outro ponto comprometedor trata-se das reconfigurações do tecido familiar. O colo onde os filhos são gerados também passa por remodelações. Ou seja, a família educadora das novas gerações encontra-se em busca de outros caminhos. Para além de reconhecer as perdas ou ganhos da passagem de um modelo antigo (pai-esposa-filhos) para as atuais formas de família, uma questão importante (fácil de ser constatada) é a carência de cuidado na base da vida. ‘Quem olha por mim?’ Eis um drama gerador daquilo que alguns pensadores chamam de uma adolescência prolongada, que carrega o peso da incerteza por um lugar social e da carência do cuidado dos adultos.
Como reflexo de tais inquietações, cresce nos meios juvenis elementos como violência, rivalidades, uso excessivo de drogas, irresponsabilidades no trânsito e etc. Alguns, mais apressados, dizem: falta lei! Mas o melhor seria fazer uma honesta pergunta: o que estaria em questão nesse culto gratuito da violência? Segundo Joel Birman, psicanalista, “pela manifestação da violência, o jovem realiza uma cena de exibição de força, pela qual realizaria uma afirmação de si e buscaria ao mesmo tempo o respeito da parte dos outros”[1] . Soma-se a isso a grande busca pelas formas cada vez mais trabalhadas do corpo, com uma variedade de tatuagens, enfeites... Seria precipitação dizer que o valor estético é o objetivo primeiro. Isso porque a busca por um corpo ‘sarado’ parece mais revelar o desejo de um olhar dos outros sobre si, o que mostra alguma inconsistência básica a respeito do próprio ser. Músculos e tatuagens seriam simulacros de outro desejo: ‘vejam, eu existo’.
Como ler tudo isso sem tropeçar em interpretações superficiais? A questão parece incidir-se no próprio período chamado juventude, rompido em sua cronologia. As crianças, cada vez mais atarefadas, não encontram tempo certo para o amadurecimento e a adolescência, cada vez mais alongada, também não consegue constituir um sujeito com lugar social ou simbólico. Se antes a familiar nuclear cuidava de seus filhos já preparando um espaço para os mesmos, hoje tal cenário muda-se porque, já que os adultos não lhes dão segurança suficiente, e por isso não são referenciais claros, eles padecem por um excesso de energia sem destino.
Enfim, a precariedade dos cuidados básicos com crianças e adolescentes, exemplificadas pela falta daquele olhar primeiro de quem cuida e da dúvida pelo lugar social, provocam inquietações misteriosas na constituição corporal e social dos novos sujeitos contemporâneos. E, no fundo, o que está em jogo é a pergunta fundamental pelo sentido do próprio ser.
Pe. Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R.
Provincial Redentorista da Província do Rio
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